A Notícia Cômica: um novo formato de construir a opinião pública (I)

Por Bianca Teixeira MORELLI[1] Denis Porto RENÓ[2] 

RESUMO: O presente trabalho se debruça nas discussões sobre gêneros jornalísticos, mais especificamente sobre o jornalismo caricato, ou seja, quando se utiliza o humor como ferramenta para transmitir uma informação. Respaldando-se nas definições propostas por José Marques de Melo (2003), baseando-se nas teorias do jornalismo apresentadas por Nelson Traquina (2005) e Felipe Pena (2005) e fundamentando-se nos ensinamentos de Jorge Halperín (2008) e Rafael Yanes (2004) sobre as técnicas de entrevista, entre outros autores, esta pesquisa se propôs a analisar o humor como um recurso legítimo e colaborador no desempenho do jornalismo. Como corpus de análise utilizamos o quadro de entrevistas do programa talk show “The Noite com Danilo Gentili”, exibido pelo Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT.

PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo; telejornalismo; humor; opinião pública.

1 Introdução

Entender o jornalismo contemporâneo e suas linguagens diversas é um desafio. Entretanto, tal entendimento torna-se fundamental para o desenvolvimento do mesmo. Esse foi o estímulo desta pesquisa, que buscou identificar o programa “The noite com Danilo Gentili” dentro das técnicas do jornalismo. Para isso, partiu-se da classificação de gênero opinativo da modalidade caricato no jornalismo brasileiro, realizada por José Marques de Melo (2003), em seu livro Jornalismo Opinativo, conscientes de que a discussão pode provocar diversas opiniões, favoráveis e contra.

José Marques de Melo utiliza como base a divisão feita por Luiz Beltrão, mas adiciona novas categorias, especialmente o jornalismo caricato. Segundo o autor, “enquanto gênero jornalístico, a caricatura cumpre uma função social mais profunda que a emissão rotineira de opinião nos veículos de comunicação coletiva” (MARQUES DE MELO, 2003, p. 166). Portanto, a utilização de imagens e textos com características exageradas ou deformadas para denunciar um fato ou um comportamento, cumpria (e cumpre) a função do jornalismo de forma mais rápida e eficaz que as outras formas de texto opinativo, como os editoriais, por exemplo.

A partir do estudo das bibliografias sobre o uso do humor no jornalismo e da análise dos recursos, técnicas e temáticas utilizados pelo apresentador ao longo das entrevistas do corpus de análise, foi analisado se o humor não é somente um recurso legítimo do jornalismo, como pode ser um mecanismo mais democrático na difusão das informações, graças à linguagem simples, leve e direta que o tom humorístico possibilita.

Utilizando o método científico da dedução, parte-se da hipótese de que o uso do humor no jornalismo não descaracteriza, tampouco impede o desempenho do papel social esperado deste profissional.

Iniciou-se este estudo com pesquisas bibliográficas em livros, artigos, entre outros recursos, para fundamentar as técnicas jornalísticas, principalmente as utilizadas em entrevistas televisivas.

Enquanto corpus de análise, optou-se pelo programa televisivo “The Noite com Danilo Gentili”, estreado em março de 2014 no Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT. Ao observar o quadro de entrevistas do programa, com uma grande variedade de convidados e temas, de duração média de vinte minutos, constatou-se a singularidade com que Gentili conduz o programa. Portanto, considerou-se válido estudar essa relação entre jornalismo e humor, certas vezes mal vista ou mal interpretada.

Após a pesquisa bibliográfica, estabeleceu-se, então, uma busca teórica e prática, utilizando como técnica de pesquisa a análise de conteúdo. Acreditou-se que a forma mais justa de analisar e comparar as características do “The Noite com Danilo Gentili” com outros programas jornalísticos tradicionais e comprovar a proximidade existente entre ambos, foi realizando uma minuciosa observação dos recursos técnicos, temáticos e de linguagem, utilizados por Danilo Gentili.

Portanto, as considerações finais foram possíveis ao correlacionarem-se as características e técnicas levantadas na análise dos programas de Gentili com os modelos padrões de telejornalismo, com apoio aos manuais de telejornalismo escritos por Heródoto Barbero e Paulo Rodolfo Lima (2002) e Vera Íris Paternostro (2006). 

2 Jornalismo Opinativo: humor e notícia

A discussão sobre quais foram as primeiras publicações jornalísticas, e, consequentemente, o que caracteriza um material como jornalístico é longa e não encontra um consenso entre os teóricos. Estudiosos de vários países se contrariam e apresentam diferentes exemplos e argumentos. Neste trabalho, tomou-se como características de uma publicação jornalística àquela proposta por Felipe Pena (2005), a qual se assemelha também a proposta de José Marques de Melo (2003).

Pena (2005) determina como características jornalísticas a periodicidade, a atualidade, a universalidade e a publicidade. Todos esses aspectos, apesar de terem significações individuais bem definidas, só podem ser totalmente compreendidos se forem aplicados em conjunto, ou seja, associados uns com os outros. Apenas um ou dois desses itens não são suficientes para definir uma publicação como jornalística.

Por exemplo, só é possível entender a periodicidade como uma característica legítima do jornalismo quando relacionada à atualidade e a publicidade, que nesse caso entende-se como divulgação e distribuição do produto, e não como propaganda comercial. Ou seja, uma publicação produzida e divulgada com regular frequência precisa ter informações atuais (e não novas) e de interesse público, senão seria apenas informações para consulta.

Definidas as características jornalísticas, a próxima questão a ser discutida foi sobre as categorias que o jornalismo pode ser enquadrado. Segundo Marques de Melo (2003), pode-se considerar duas categorias fundamentais no jornalismo: o informativo e o opinativo. A divisão do jornalismo nessas duas categorias é um consenso entre profissionais e estudiosos da área e embasa outras possíveis categorias. Como ainda pontua o autor, concepções ideológicas do meio e o modo de produção econômico que caracteriza a sociedade em questão resultam na criação de outras categorias ou subcategorias dentro das fundamentais.

O jornalismo informativo, como o próprio nome sugere, tem a papel de informar, cabendo ao jornalista a função de observador dos fatos, sendo responsável por divulgá-lo sem opinar. O repórter pode tanto observar em tempo real, como se informar dos acontecimentos por meio de fontes que vivenciaram o ocorrido ou tenham informações relevantes para acrescentar.

O conhecimento dessas informações por intermédio das fontes é possível graças à técnica de entrevista, a qual atualmente nos parece muito corriqueira e inseparável da produção jornalística, mas que, segundo o teórico português Nelson Traquina (2005, p. 60-61), “apesar da disputa histórica em torno da data da primeira entrevista (SCHUDSON, 1994, p.566), a utilização da entrevista apenas começou a ser uma prática recorrente nos anos 1870”.

Em seu livro, Yanes (2004) reserva um subcapítulo inteiro para discutir a definição de entrevista. Inicialmente, o autor faz um compilado das definições de outros teóricos e estudiosos da área, como por exemplo, Gabriel García Márquez, que define a entrevista como o “gênero mestre”, visto que é a fonte pela qual se nutrem todos os gêneros jornalísticos. Por fim, Yanes conclui que a entrevista é um gênero do jornalismo informativo, que reflete as respostas de um personagem, cujas opiniões, devido a sua relevância social, o cargo que ocupa, ou o seu envolvimento em feitos da atualidade informativa, são de interesse geral.

Jorge Halperín (2008) também se debruça sobre a técnica da entrevista, em seu livro, o autor comenta sobre os entrevistados, dá dicas de como lidar com diferentes situações, enfim, esmiúça a arte de entrevistar, e tenta ensinar como conseguir conquistar uma boa entrevista, ou seja, como ele mesmo diz, “mostrar a face oculta da lua”.

Diferente do que muitos possam imaginar, o jornalismo opinativo foi o berço do jornalismo informativo, tal qual conhecemos atualmente. O uso da opinião ao informar não é exclusividade dos dias atuais, muito pelo contrário, os primeiros jornais nasceram repletos de comentários e opiniões. Contudo, forças políticas caminharam para que a produção jornalística passasse a ser predominantemente informativa, restando uma mínima parcela de opinião nos meios de comunicação.

Após uma análise nos modelos de classificação de gênero de outros países, Marques de Melo (2003) propõe e descrever os gêneros opinativos presentes no jornalismo brasileiro. Segundo o autor, os textos que apresentam opinião são: o editorial, o comentário, o artigo, a resenha ou crítica, a coluna, a crônica, a caricatura e a carta.

Para o presente trabalho, apoiou-se no gênero opinativo caricatura – quando a informação não se limita a palavra, mas incorpora a imagem como instrumento de opinião. É uma maneira de expressão artística por meio do desenho que tem como finalidade o humor. Essa comunicação é procurada por aquele leitor que quer se informar rapidamente, apenas passando os olhos pela publicação.

É preciso diferenciar as imagens opinativas, no caso, a caricatura, das imagens informativas, como mapas, gráficos e desenhos os quais fazem apenas um registro simbólico dos fatos. Já a caricatura é encarregada de realizar um julgamento, uma manifestação explícita da opinião.

Para isso, José Marques de Melo (2003) identifica dois fatores socioculturais para justificar o surgimento das caricaturas e o uso do humor como recurso jornalístico: o avanço tecnológico nos processos de reprodução gráfica e a popularização do jornal como veículo de comunicação coletiva.

Observamos que o recurso da caricatura representou uma necessidade social de um jornalismo que ampliava o seu raio de ação, ganhando novos contingentes de leitores. O novo público da imprensa continha segmentos que não haviam tido o privilégio da educação formal continuada e cuja percepção dos acontecimentos exigia processos descritivos mais eficazes e motivadores (MARQUES DE MELO, 2003, p.164).

É com traços exagerados de expressão, causando humor que o desenho dá origem a um seguimento do jornalismo – “o jornalismo caricato – destinado à sátira política e social” (MARQUES DE MELO, 2003, p.165).

Portanto, o uso do humor, além de chamar atenção pela sua forma pitoresca de ser, também colabora para o entendimento de questões mais complexas pela parte menos favorecida da população. Além disso, a caricatura contribui para humanizar e popularizar certas personalidades da sociedade, Marques de Melo destaca como exemplo deste recurso a imagem de Pedro II, no passado, e de Lula e Maluf, nos dias atuais.

A caricatura pode ser dividida em quatro espécies diferentes: a caricatura propriamente dita, ou seja, retratos humanos ou de objetos com traços desproporcionais com a finalidade de fazer rir e expressar ironia; a charge, que é a ilustração de determinado fato pela ótica do desenhista, pode ser apresentada com apenas imagens, ou imagens combinadas com textos; o cartoon, apesar de ser vinculado com o momento presente e representar uma crítica severa, não são utilizados personagens ou fatos reais; e o comic, que é a conhecida história em quadrinhos.

Marques de Melo ressalta que o cartoon e o comic não são gêneros jornalísticos, pois, ultrapassam a fronteira do real e do imaginário, não apresentando limites de tempo e espaço. Já a caricatura e a charge têm um referencial verídico, sua legitimidade humorística vem do real e flagra as expressões cômicas do dia a dia. “Ambas as espécies só adquirem sentido no espaço jornalístico porque se nutrem dos símbolos e valores que fluem permanentemente e estão sintonizados com o comportamento coletivo” (MARQUES DE MELO, 2003, p.168).

O autor menciona as imprensas caricatas pioneiras no Brasil, as quais surgiram ainda nos primeiros anos do século XIX. No entanto, esse gênero ganhou intensidade no início dos anos de 1960, representado pelo semanário Pasquim, publicação de resistência ao militarismo vivido no país.

Marques de Melo empresta as palavras do humorista Millôr Fernandes, ao descrever que publicação Pasquim tinha como única finalidade executar uma crítica geral e democrática a tudo e todos. Sendo que a maioria dos redatores do semanário não tinham ligações políticas, religiosas, econômicas com nenhum grupo. Por isso, agora nas palavras do próprio Marques de Melo (2003, p.171), o autor define o Pasquim como um exemplo completo do jornalismo caricato: “o traço e o texto, lado a lado, ironizam o cotidiano, satirizam os protagonistas da notícia, registram com humor a emergência de um novo projeto de sociedade”.

É importante salientar que a descrição feita por Marques de Melo sobre jornalismo caricato limita-se a produções jornalísticas impressas, e, de acordo com o autor, não podem ser aplicadas ao mundo televisivo. Contudo, deve-se ressaltar que a obra de Marques de Melo foi escrita há quase duas décadas, tendo ocorrido muitas mudanças tecnológicas e de conteúdo desde então. Portanto, analisa-se a seguir o programa humorístico televisivo “The Noite com Danilo Gentili” a fim de comprovar que foi alcançado o gênero caricato na televisão, identificando no programa as mesmas características que o autor identificou, por exemplo, no semanário Pasquim. 

3 The Noite com Danilo Gentili

O programa “The Noite com Danilo Gentili” é o sucessor do programa “Agora é Tarde” apresentado pelo humorista na emissora Bandeirantes. Contudo, por questões financeiras e ideológicas, praticamente toda a equipe participante do programa saiu da Band e foi contratada pelo SBT. O programa manteve os moldes de seu antecessor, seguindo a linha de late night talk show.

Após vários boatos sobre a nome da atração, em 22 de janeiro de 2014 foi divulgado o nome oficial do programa: “The Noite com Danilo Gentili”. O nome é um trocadilho com o artigo “the” do inglês, que sonoramente é igual a palavra “de” brasileira. A estreia foi em 10 de março de 2014, tendo como primeiro convidado o também humorista Fábio Porchat.

A equipe, que já contava com Danilo na apresentação, a banda Ultraje a Rigor, os humoristas Léo Lins e Murilo Couto e a assistente de palco Juliana Oliveira, ficou completa com a contratação do locutor Diguinho Coruja. Apesar de o programa ser majoritariamente apresentado por Danilo, toda a equipe tem liberdade para comentar, fazer piadas, dar opinião, independe do quadro ou entrevistado que estiver presente.

“The Noite com Danilo Gentili” é exibido de segunda a sexta-feira a meia noite. O principal quadro é o de entrevista, tem duração média de vinte minutos e conta com as mais diversas personalidades religiosas, políticas, da música, da televisão, do rádio, da internet, do teatro, do esporte, entre outros.

O programa geralmente começa com um monólogo do apresentador, que reproduz alguma informação que esteve ou não em destaque na mídia nacional, e em seguida, tece um breve comentário, ironizando ou ridicularizando a situação. O talk show conta ainda com outros quadros, como a “Rodada da Noite”, “Leite Show”, “Cyberbullying”, “O Mestre Mandou”, “Curiosidades do The Noite”, “Comentando os Comments”, “O Homem do QI 200″.

O quadro de entrevista do “The Noite com Danilo Gentili” já recebeu os mais diversos convidados. Depois de um ano no ar, Danilo coleciona uma longa lista de famosos e anônimos em diferentes áreas, como por exemplo, na música, de Milionário & José Rico e Zezé de Camargo & Luciano, passando por Falcão e Gabi Amarantos até Mc Guimê e Valesca Popozuda. Representantes religiosos e políticos, como Eduardo Bolsonaro, Aloysio Nunes, Luciana Genro, Pastor Silas Malafaia, Pastor Caio Fabio, Padre Fabio de Melo. Personalidades da televisão como Carlos Alberto de Nóbrega, Heródoto Barbeiro, Rachel Sheherazade, Palmirinha, Jorge Kajuru, Ana Paula Padrão, Edgar Vivar, o ator do personagem “Seu Barriga” do seriado “Chaves”. Esportistas também são presentes no programa, como os jogadores de futebol Robinho e Túlio Maravilha, a seleção brasileira de handball feminino, o lutador Anderson Silva. E ainda, especialistas como o professor da Universidade de Campinas, Diego Aranha, que encontrou falhas na urna eletrônica utilizada pelo Brasil nas eleições.

CONTINUARÁ

 


[1]  Jornalista pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia da mesma instituição. Email: btmorelli@gmail.com.

[2]  Jornalista, doutor em Comunicação Social (UMESP), é professor do programa de graduação em Jornalismo e Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista – UNESP. Orientou a pesquisa. Email: denis.porto.reno@gmail.com